- Me dá parabéns.
- Por que?
- Porque hoje é dia da mulher.
- Mas você não é uma mulher.
- O que é que eu sou, então?
- Você é uma menininha. Uma menininha chata.
Silêncio
- Parabéns (smack).
Pois é, menina, mulher. Qual é a diferença? Quando se é adolescente, acha-se que a diferença é o corpo, a possibilidade de procriação, a menarca. Aí acontece que aparece o tal do sangue mensal, e... Nada muda. Continua-se sendo uma menininha. Depois pensa-se que se vai ser mulher quando entrar na faculdade, quando sair da faculdade, quando começar a trabalhar, quando mudar de emprego, quando ganhar melhor, quando trabalhar na área, quando puser prótese de silicone, quando começar a análise, quando terminar a análise, quando pintar o cabelo, quando namorar, quando casar, quando separar...ai, posso eternamente citar verbos e exemplos aqui.
Enquanto isso, durante esta busca, se é uma menininha. Chata. Desengonçada. Magrela. Gorda. Errada. Faltante. Falante. Tagarela. Como funciona isso? Como faço aquilo? Que botão devo apertar? Você me ama?
Menininhas enchem os sacos alheios, pedindo-lhes palavras. Pedindo-lhes olhos, ouvidos, corações. Reivindicando seus espaços, seus afetos, suas atenções.
Desengonçadas física e afetivamente, se metem em saltos altos e palavras difíceis, convencem a todos de que são inabaláveis. A quase todos, pois não a si mesmas. Sabem que em qualquer paralelepípedo, podem ter os saltos quebrados. Sabem que a qualquer lombada da vida, têm os seus corações partidos. Sabem que toda dor que há, sentem-nas elevadas ao cubo, no mínimo. Sabem que dois mais dois são quatro, mas fazem virar três, cinco, ou mil. Porque sabem das coisas que são da ordem ilógica, são da lógica da desordem. Amedrontam os homens, apaixonam os homens. E aí, o tal do ser mulher não chega, a graça está na busca, está no caminho que se trilha. Sábio é aquele que sabe disso. Que no fundo, toda mulher é uma menininha chata.




