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quinta-feira, 14 de julho de 2011

Tagarelice, às vezes é silêncio



Sorte a sua que eu escrevo. Senão, você iria explodir. Ou, eu poria tudo a perder. O fato é que você não me agüentaria se as minhas palavras não tivessem vida própria e dependessem de você.

Eu falo demais quando não é necessário (sim, eu sou didática e quero explicar a mesma coisa de mil jeitos diferentes), e calo-me em excesso quando falar se torna importante.

E você mais se irrita com o meu silêncio inconveniente do que com a minha tempestade de palavras - que só sabem existir exageradamente.

Mas te digo, meu amor...às vezes o mundo se cala dentro de mim. Às vezes as coisas, por um instante, se tornam insípidas - e falar se torna inútil. Há momentos em que caio num vazio existencial tão profundo, que não posso falar.

Tá, eu sei que esses momentos acontecem não apenas com assuntos importantes, mas também com as coisas mais triviais o possível. Mas é isso mesmo. Não há algo que seja palpável e que por isso justifique a minha queda nesse abismo repentino. Simplesmente caio. É assim como vez ou outra me engasgo com a minha própria saliva, tropeço no meu próprio pé, mordo a minha própria língua. Às vezes caio no meu próprio vazio.

Não é grave. Não é preocupante. E na maior parte das vezes eu nem percebo que caí lá. Porque aquele abismo já me é tão familiar...

Aliás, faço muitas coisas sem perceber. E coisas importantes. Outro dia, ao tomar banho, passei condicionador na raiz dos cabelos, achando que era xampu. Pois é. Veja se isso é coisa que mulher que tem cabelos rasos e lisos como os meus, faça. Sim, isso é bem trivial, eu lhe avisei que era assim... Viu, só? Assim como quando você me faz uma pergunta boba e eu não sei o que responder. Pode ser a pergunta mais besta do mundo, ou a mais importante. Tanto faz. Se eu caí, não sei dizer. 

É como se a minha boca ficasse seca de palavras. Ou, melhor, é como se as minhas palavras não encontrassem uma boca por onde escapar de mim. E ali eu fico. Muda. Travada. Paralisada. E logo passa.

E como eu ia dizendo...faço coisas sem perceber. Coisas importantes também. Perco documentos sem-querer. Eles simplesmente desaparecem do lugar onde deviam estar. Te amo sem-querer. De repente dou-me conta de que há um amor no meu corpo. Que a minha alma está encharcada de quereres. Que a minha existência só sabe pulsar diante dos seus olhos. Loucura minha?

É, bebê...Sorte a minha que eu escrevo.




22 comentários:

Ayanne Sobral disse...

Ao mesmo tempo que sorri ao ler seu texto, me peguei tristonha, perdida nos meus pensamentos. Às vezes eu engulo as palavras - que passeiam pela garganta como cacos de vidro, e ferem - e não é porque eu quero, talvez seja por medo, ou pela minha inexperiência em domá-las. Enfim...

Suas palavras têm esse efeito em mim, Alicia: me permitem sair daqui e ir longe, bem longe. Você salpica doses de suavidade nos dedos que deixam sua poesia [mesmo quando prosa] passeando por aqui. Obrigada por isso.

Texto lindo. Tão lindo e tão verdadeiro que até dói. Mas é uma dor bonita.

PS: Sorte a nossa que você escreve.
Admiração mil.

Karla Dias disse...

Bem realista o seu texto.
Poderia direcioná-lo a diferentes pessoas com que convivo...sorte delas que eu escrevo: senão...

Vívian M. disse...

As vezes caio no meu próprio abismo e nem faço questão de saber como fui parar lá. Assusta mais do que estar dentro.

Morgana Medeiros disse...

O silêncio são gritos que,por vezes, não conseguimos explicar,por isso silenciamos.

Existem silêncios que dizem muito mais que as palavras!

Belo texto!!

Camila Márcia disse...

Uau, eu já disse que adoro como vc escreve? Parece uma conversinha rsrsrsrs

Amohh

Ai ai, e escrever alivia, pq é um desabafo, escrever é uma forma de compensar aquilo que não foi dito.

bjs
http://devaneiosfugazes.blogspot.com/

A.S. disse...

Alicia... te ler é uma delicia!


Beijos,
AL

BG disse...

Às vezes, escrever pode ser mais eficaz do que uma hora no psicanalista!

natyscastro disse...

to começando achar q vc tem alguma especie de poder sobrenatural em ler o pensamento das pessoas... me encontro e reencontro em cada post q vc escreve. nesse... muitas coincidências.. até mesmo o apelidinho do amado rsss

bejus..

Az.) disse...

sou assim também. Falo, muito, na hora errada e calo, na hora de falar. Ainda bem que você escreve, senão, onde eu leria textos tão envolventes assim? ;*

Brunna disse...

Certamente das minhas melhores leituras dos últimos tempos.
Vc traduz aquilo que sinto o tempo todo, Alicia.
É delicioso esse espaço, tão intenso e acolhedor! ;}

LuH disse...

Já disse aqui: Vc me lembra Clarice. Dispôe livremente do que é seu, tocando em cada pedaço do que nos carece ser tocado.
Parece que rege uma orquestra, e adoro ouví-la!

"A palavra é o meu domínio sobre o mundo."
Clarice lispector

Sandro Ataliba disse...

Um daqueles raros texto em que eu penso: "eu deveria ter escrito isso." Li-o em voz alta para minha esposa, que também te segue.

Danelize Gomes disse...

Sabe aquela sensação de ter lido algo que expressa o que tu sente? pois é.
É exatamente sempre assim quando acabo de ler teus textos,Alicia.
Massageando teu ego ou não, tu é perfeitamente demais.
E cair no seu próprio abismo é sempre bom. Cada vez que se cai, é um aprendizado,pelo menos para mim é assim.

Adoro-te,não toda :D

Fred Caju disse...

A palavra é prata, o silêncio...


É, ainda bem que você escreve.

Vanessa Souza Moraes disse...

Sorte a nossa :)

Ingrid disse...

teus escritos são sempre de prender..
amei..
beijos linda!

Ivan disse...

Poxa vida, a qualidade dos seus textos não diminui, são sempre excelentes!

Thaís Alves disse...

Meu marido leu e eu o identifiquei aí hahahahahaha. Mas enfim, o que explica não justifica, o silêncio inoportuno irrita e algumas vezes quebra as coisas. E depois é difícil consertar. Espero que sempre trabalhe nisso para que nunca te traga problemas. Um beijo!

Marcelo Henrique Marques de Souza disse...

O mais interessante é fazer alpinismo nesses abismos..

Lívia Azzi disse...

Cair no próprio vazio é como morder a própria língua... Sabe que adoro essa sua didática misturada com sua prosa lírica, Alicia?!

Gabriella Beth Invitti disse...

E eu, aqui, me encontrando em suas palavras outra vez.
Sorte a [minha] que você escreve.

Paulo Becare Henrique disse...

Tagarelice, às vezes é silêncio. E, às vezes, silêncio é eloquência.