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sábado, 23 de julho de 2011

Senti-dó

O corpo entorpece
A palavra vai junto
Tudo se desfigura
Ou sou eu que posso enxergar?
As coisas não fazem sentido
Eu é que dou um a elas
Porque assim posso suportá-las

E quando eu não agüento
As coisas parecem embaçadas
Mas é quando mais estão nítidas
(Tenho vontade de vomitar
Ao me ler)
O sentido me excede
E tudo vira mentira.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Pão é o amor entre estranhos (Clarice Lispector)






A onda vai e vem
O trem não tem
A gente não tem
Sabe lá o que é falta
Mas dentro de mim, o que eu não tenho se sobressalta.
Doçura ácida
Existência flácida
Sem sentido
Viver tem gosto de pão amanhecido.

domingo, 17 de julho de 2011

Escrevivendo intensamente





A gente vive com a cabeça na lua, por aí. Daí dizem que a gente tem que "viver o presente", pra poder viver intensamente. Lindo na teoria, né? Mas total fail na prática. É, porque ninguém consegue viver intensamente o tempo todo.

A gente precisa, de vez em quando, esquecer dos sentidos. Funcionar no piloto automático. É como se, então, o corpo funcionasse sem que estivéssemos, de fato, ali. É como se o cérebro pensasse e agisse por conta própria, sem a nossa real presença.

Acho que é por isso que eu gosto tanto de escrever. Porque é aí, que eu entro mesmo no meu corpo. Eu e mim. Eu, ativo, conjuga verbo. Mim, passivo, não conjuga verbo. Vejam só que interessante. Um ativo e um passivo. Um homem e uma mulher. (Não surtem, feministas! Não é o espermatozóide que vai em busca de um óvulo?) Um masculino e um feminino.

Descrita dessa forma, a escrita me remete à relação sexual. O meu eu penetra o meu mim. É, talvez seja um pouco isso. E então eu sou ninfomaníaca. Ardo de desejo por mim mesma, mas jamais me contento com o resultado. Leio e não gosto, leio e não gosto. Preciso sempre escrever mais. E não bastasse ser ninfomaníaca, sou ainda, exibicionista. Porque, sim, eu quero ser li(n)da.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Tagarelice, às vezes é silêncio



Sorte a sua que eu escrevo. Senão, você iria explodir. Ou, eu poria tudo a perder. O fato é que você não me agüentaria se as minhas palavras não tivessem vida própria e dependessem de você.

Eu falo demais quando não é necessário (sim, eu sou didática e quero explicar a mesma coisa de mil jeitos diferentes), e calo-me em excesso quando falar se torna importante.

E você mais se irrita com o meu silêncio inconveniente do que com a minha tempestade de palavras - que só sabem existir exageradamente.

Mas te digo, meu amor...às vezes o mundo se cala dentro de mim. Às vezes as coisas, por um instante, se tornam insípidas - e falar se torna inútil. Há momentos em que caio num vazio existencial tão profundo, que não posso falar.

Tá, eu sei que esses momentos acontecem não apenas com assuntos importantes, mas também com as coisas mais triviais o possível. Mas é isso mesmo. Não há algo que seja palpável e que por isso justifique a minha queda nesse abismo repentino. Simplesmente caio. É assim como vez ou outra me engasgo com a minha própria saliva, tropeço no meu próprio pé, mordo a minha própria língua. Às vezes caio no meu próprio vazio.

Não é grave. Não é preocupante. E na maior parte das vezes eu nem percebo que caí lá. Porque aquele abismo já me é tão familiar...

Aliás, faço muitas coisas sem perceber. E coisas importantes. Outro dia, ao tomar banho, passei condicionador na raiz dos cabelos, achando que era xampu. Pois é. Veja se isso é coisa que mulher que tem cabelos rasos e lisos como os meus, faça. Sim, isso é bem trivial, eu lhe avisei que era assim... Viu, só? Assim como quando você me faz uma pergunta boba e eu não sei o que responder. Pode ser a pergunta mais besta do mundo, ou a mais importante. Tanto faz. Se eu caí, não sei dizer. 

É como se a minha boca ficasse seca de palavras. Ou, melhor, é como se as minhas palavras não encontrassem uma boca por onde escapar de mim. E ali eu fico. Muda. Travada. Paralisada. E logo passa.

E como eu ia dizendo...faço coisas sem perceber. Coisas importantes também. Perco documentos sem-querer. Eles simplesmente desaparecem do lugar onde deviam estar. Te amo sem-querer. De repente dou-me conta de que há um amor no meu corpo. Que a minha alma está encharcada de quereres. Que a minha existência só sabe pulsar diante dos seus olhos. Loucura minha?

É, bebê...Sorte a minha que eu escrevo.




segunda-feira, 11 de julho de 2011

Tu és o meu passeio




É tão bom te ver. Você tem um brilho sedutor.
Os olhos grandes e atentos. E eu os querendo só pra mim.
Os lábios agridoces e misteriosos.  E eu rezando pra que deles pule uma palavra vermelha.
As mãos firmes e decididas. E eu, por telepatia, tentando fazê-las me pegarem firme e me dar alguma segurança.

Sim, eu disse segurança. E não é que eu seja a pessoa mais insegura, mimimi ou ciumenta desse mundo. É simplesmente porque eu sou desengonçada - e não é só por fora. Acho mais bonito dizer que é porque a minha alma se esparrama. Que por isso eu fico estabanada.

Então vem você e me junta. Não é isso o que você está pensando. Não estou aos cacos. Mas é que eu sou pedaços. Não sou fragmentada. Eu sou cada fragmento meu. Sou inteira nas minhas metades.

Então vem você e me dá uma moldura, e me dá tônus, e me dá alguma firmeza. Pode parecer que é aí que eu me sinto forte, quando estou segura e firme, diante de você.

Mas engana-se, meu bem. É aí que eu me sinto mais fraca. É aí que estou mais vulnerável.
Forte estou quando estou em pedaços, que é a minha condição natural. O chão é o meu habitat natural, e ali eu me componho de forma elegante. Se pareço sedutora, é porque me confundo com o chão. E este, sim, é sedutor. Tá aí a lei da gravidade pra comprovar a paixão que nós temos pelo chão nesse planeta. Enfim.

Vem você e me monta. Vem você e me dá forma. Vem você e me dá a forma que você bem entende. E vai embora quando bem entende. E então, a qualquer momento posso me espatifar no chão. Levar um tombo bem bonito. Despencar. Despedaçar.

Te parece terrível? Não, querido. Eu disse, o chão é meu habitat natural. Ali está tudo sob controle.

Mas é que eu gosto mesmo é de passear. De ganhar vida nos seus olhos, de dormir no seu sorriso, de acordar no seu abraço. De me enxergar nos seus olhos, toda vestida de ilusões.