Sorte a sua que eu escrevo. Senão, você iria explodir. Ou, eu poria tudo a perder. O fato é que você não me agüentaria se as minhas palavras não tivessem vida própria e dependessem de você.
Eu falo demais quando não é necessário (sim, eu sou didática e quero explicar a mesma coisa de mil jeitos diferentes), e calo-me em excesso quando falar se torna importante.
E você mais se irrita com o meu silêncio inconveniente do que com a minha tempestade de palavras - que só sabem existir exageradamente.
Mas te digo, meu amor...às vezes o mundo se cala dentro de mim. Às vezes as coisas, por um instante, se tornam insípidas - e falar se torna inútil. Há momentos em que caio num vazio existencial tão profundo, que não posso falar.
Tá, eu sei que esses momentos acontecem não apenas com assuntos importantes, mas também com as coisas mais triviais o possível. Mas é isso mesmo. Não há algo que seja palpável e que por isso justifique a minha queda nesse abismo repentino. Simplesmente caio. É assim como vez ou outra me engasgo com a minha própria saliva, tropeço no meu próprio pé, mordo a minha própria língua. Às vezes caio no meu próprio vazio.
Não é grave. Não é preocupante. E na maior parte das vezes eu nem percebo que caí lá. Porque aquele abismo já me é tão familiar...
Aliás, faço muitas coisas sem perceber. E coisas importantes. Outro dia, ao tomar banho, passei condicionador na raiz dos cabelos, achando que era xampu. Pois é. Veja se isso é coisa que mulher que tem cabelos rasos e lisos como os meus, faça. Sim, isso é bem trivial, eu lhe avisei que era assim... Viu, só? Assim como quando você me faz uma pergunta boba e eu não sei o que responder. Pode ser a pergunta mais besta do mundo, ou a mais importante. Tanto faz. Se eu caí, não sei dizer.
É como se a minha boca ficasse seca de palavras. Ou, melhor, é como se as minhas palavras não encontrassem uma boca por onde escapar de mim. E ali eu fico. Muda. Travada. Paralisada. E logo passa.
E como eu ia dizendo...faço coisas sem perceber. Coisas importantes também. Perco documentos sem-querer. Eles simplesmente desaparecem do lugar onde deviam estar. Te amo sem-querer. De repente dou-me conta de que há um amor no meu corpo. Que a minha alma está encharcada de quereres. Que a minha existência só sabe pulsar diante dos seus olhos. Loucura minha?
É, bebê...Sorte a minha que eu escrevo.