Sou uma jovem viúva. Quando pequenina, casei-me. Dizem que hoje em dia isso já não acontece mais; não sei, mas na minha infância isso acontecia o tempo todo. Pois foi aí que casei muito jovem com um moço. O tal moço parecia extremamente saudável, tinha olhos que fingiam brilhar, quando na verdade, me hipnotizavam.
Daí que esse moço me enganou. Parecia saudável, mas rapidamente descobrimos-o gravemente doente. Após um período longo de convalescença, tratamentos paliativos, doença em estado terminal, aparelhos respiratórios, tudo pra prolongar uma vida enferma que não acabava...eu decidi assassiná-lo. Sim, sou uma viúva-homicida, eu confesso.
Mas como nada na vida é simples assim, o que acontece é que o falecido adora ressucitar. E eu, descobri que tenho um lado perverso, que adora matá-lo. E então eu vivo disso: de assassinar o falecido.
É delicioso acabar com ele. Sinto-me inteligente, revigorada, decidida, auto-suficiente. E ganhei de presente do mundo, uma doce ignorância que me permite esquecer algumas coisas, só pra ter o prazer de descobri-las de novo.
É aí que sempre me surpreendo, diante do moço tomando a vida para si de novo. Renasce, aparentemente revigorado, de olhos igualmente hipnotizantes, ataques de riso sedutores. Mas logo cai enfermo novamente. E eu torno a matá-lo. Mato-o todos os dias, mas ele ressucita como ninguém. Pois se eu o mato, é para que ele possa nascer novamente. Porque o meu falecido chama-se amor romântico. Jovem-viúva-homicida. Eis o que eu sou.




