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quarta-feira, 23 de março de 2011

Viúva




Sou uma jovem viúva. Quando pequenina, casei-me. Dizem que hoje em dia isso já não acontece mais; não sei, mas na minha infância isso acontecia o tempo todo. Pois foi aí que casei muito jovem com um moço. O tal moço parecia extremamente saudável, tinha olhos que fingiam brilhar, quando na verdade, me hipnotizavam.

Daí que esse moço me enganou. Parecia saudável, mas rapidamente descobrimos-o gravemente doente. Após um período longo de convalescença, tratamentos paliativos, doença em estado terminal, aparelhos respiratórios, tudo pra prolongar uma vida enferma que não acabava...eu decidi assassiná-lo. Sim, sou uma viúva-homicida, eu confesso.

Mas como nada na vida é simples assim, o que acontece é que o falecido adora ressucitar. E eu, descobri que tenho um lado perverso, que adora matá-lo. E então eu vivo disso: de assassinar o falecido.

É delicioso acabar com ele. Sinto-me inteligente, revigorada, decidida, auto-suficiente. E ganhei de presente do mundo, uma doce ignorância que me permite esquecer algumas coisas, só pra ter o prazer de descobri-las de novo.

É aí que sempre me surpreendo, diante do moço tomando a vida para si de novo. Renasce, aparentemente revigorado, de olhos igualmente hipnotizantes, ataques de riso sedutores. Mas logo cai enfermo novamente. E eu torno a matá-lo. Mato-o todos os dias, mas ele ressucita como ninguém. Pois se eu o mato, é para que ele possa nascer novamente. Porque o meu falecido chama-se amor romântico. Jovem-viúva-homicida. Eis o que eu sou.





segunda-feira, 21 de março de 2011

Teu desejo me salva da minha vida



O meu mundo existe quando sinto os seus lábios, por mim arderem.

E num calafrio, sinto as minhas células, uma a uma se perderem.

É nesse momento que eu mais me sinto segura: quando estou sem chão.

Foge de mim toda a ternura, e ou pura pura pulsão.

Pois eu moro no ar, e veja, nem sou borboleta.

E este ardor nada tem a ver com te amar. O que para mim, é uma faceta.

Diante disso te pergunto: Seus lábios ardem mesmo por mim ou esta sensação é o meu puro reflexo?

E ao encontrar os teus lábios, o meu mundo acaba? Ou esta sensação não tem nexo?

Meus lábios queimam sempre, desejando a aproximação dos teus.

Num arrepio que me deixa doente, ardo em febre, beirando um adeus.

Esta ardência... fisicamente tão pura, mas materialmente tão subjetiva...

Quando se presentifica é como uma lança, que me perfura, e minh’alma ativa.

E é nesse instante, que é eterno, que interpreto estar sendo correspondida.

Minha alma carrega consigo um inferno. Seu desejo me salva da minha vida.

Aí, eu te imploro: esclareça-me, meu amor: você me deseja ou esta é a minha loucura?

Se for desejo, deixe que apareça, por favor. Eu o personifico, não o deixarei ser apenas rasura!




Imagem: Deviantart


quinta-feira, 17 de março de 2011

Pra que serve uma vida?


Vivo
Mas não sei pra que a vida serve
Sonho
Quando deixo que minha alma me leve


Sei lá quem deixou minha alma escapar pra este corpo
Só sei que nesse mundo, só isso é meu
Sei lá quem decide quando estou vivo ou quando estou morto
Mas sinto que nisso, há um dedo seu


E não se trata de questão existencial
Mas simplesmente de me sentir viva
É num silêncio fenomenal
Que seus olhos me dizem: vá em frente, siga.


E isso é o meu mundo
No mais, corpo e alma se viram
Com o teu olhar, é num segundo
Que vida e morte se explicam



Imagem: deviantart

terça-feira, 15 de março de 2011

Poeta



Inspira noites
Expira estrelas
Poeta é aquele que faz pontes
Apropria-se das coisas sem tê-las


Emoldura o vazio
Sustenta o que não tem nome
Agudiza o calafrio
E a angústia, então se move


Desloca-a, daqui vai pra lá
Embeleza-a, mas não a deixa
Porque beleza maior não há
Poeta é aquele que diante da angústia, a beija.



sábado, 12 de março de 2011

Olhar mata




Teu olhar é lança que me atravessa
Teu olhar é carinho que me afaga
Com um movimento de olhos fazes-me jura e promessa
E de amor quase me mata

Você me faz isso tudo e nem sabe
Às vezes penso que és inocente
Fuzila-me com seus olhares
E de amor me deixa doente

Mas que ingenuidade, que nada
Tu és um assassino
Deixou-me mal acostumada
E agora me nega mimo

Num faz-de-conta que não percebe
Convida-me a uma dança falida
Ergue-me, alegra-me, fere-me
Teu olhar faz isso e mais, ainda

Eu insisto, quero mais danças
Eu insisto, tenha cuidado com o seu olhar
Teus olhos verdes me são esperança
Mas os castanhos hão de me matar