Pois é. Estou numa fase crítica. Tenho estado vazia e sem inspiração. Talvez eu esteja trabalhando demais, o que me deixa demasiadamente sóbria. (Silêncio) Caramba, como eu sei ser hipócrita. E desde quando o trabalho nos deixa sóbrios? Ainda mais eu, que trabalho com pessoas. Pessoas foram feitas pra nos enlouquecer, e não pra nos equilibrar! Talvez, na verdade, eu nem esteja vazia. Talvez esteja é transbordando. E por transbordar, faço um bico, assobio e finjo que está tudo bem, que não é comigo. Sim, eu sei assobiar. Nem todo bico que eu faço é pra fazer manha.
Hunf. Às vezes fico puta como me deixo influenciar pelas coisas que você diz. Eu nem me acho manhosa, e cá estou aqui, me justificando pra você. Na verdade, assim, lá no fundo mesmo, eu sou manhosa. Muito manhosa. Demais da conta. Mas, benzinho, você não me agüentaria um dia sequer, caso eu fosse tudo o que eu tenho vontade de ser. Aliás, acho que eu mesma, vomitaria de me ver sendo o que sou. Então, aos seus olhos, eu não devia ser manhosa.
Poxa vida! Olha a batalha em que eu vivo. Fico lutando todo o tempo comigo. Sou ferida aberta sangrando como uma hemofílica e finjo ser toda cicatriz. Me disfarço de tatuagem, essa coisa bonita com um leve alto relevo. Tá aí: tatuagem. Era isso que eu queria ser pra você. Uma coisa que te fizesse companhia sempre, da qual você se orgulhasse e nem pensasse em se livrar. Mas o que eu quero é sempre querendo-não-querer. Assim, faça-me o favor de não realizar todos os meus desejos, pois é neles que eu respiro.




