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domingo, 19 de junho de 2011

A dor da escrita


Escrever tem sérias conseqüências. Pra quem me lê pode parecer que apenas junto uma palavra com a outra, de uma forma mais ou menos harmônica, falando de alguma coisa que eu não sei bem o que é. (Pois se eu soubesse, escrever seria desnecessário, e vocês que me lêem, já sabem disso). Mas o fato é que escrever é uma coisa muito séria. Porque o faço com o meu sangue. Escrever nem sempre é terapêutico. Aquilo que se faz para aliviar, para tornar a vida mais leve ou coisa assim. Às vezes, escrever é cutucar a ferida com um objeto pontiagudo e sujo. Tem vezes em que escrever é causa uma certa inflamação – em algum lugar obscuro de mim. Pago cada letra escrita com o meu corpo. Palavra por palavra machucam o meu ser. Escrever é achar coisas em mim que eu nem sabia que existiam. É ter que digerir essas coisas depois. É ter que fazê-lo com cada partezinha da minha existência. É descobrir que a alma dói. É descobrir que o corpo responde mal às dores da alma. É pôr um ponto de interrogação na minha existência. É ter que fazer alguma coisa com essa interrogação. É entrar em crise por uma impossibilidade de dar um verdadeiro sentido às coisas que escrevo – e às coisas que vivo. É quase morrer de dor ao se deparar com o não-sentido da vida. É ter que tapear isso de alguma forma. É conseguir enxergar coisas bonitas num ponto de interrogação. É pôr o ponto de interrogação frente a um espelho e descobrir que ele vira um coração. É achar isso brega, e lindo ao mesmo tempo. É sentir imensa angústia em não saber pra que serve a vida, e maior angústia ainda em não saber quem sou eu. Escrever é, de vem em quando, querer só uma coisa da vida: não pensar. Porque escrever é questionar a existência. É se dispor a duvidar das coisas da vida. É se dispor a construir alguma coisa verdadeiramente minha. Nem que seja uma coisa bem brega.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Alma subnutrida




Às vezes acontece que me somem os sentidos. Não; não se trata de olfato, paladar, audição, tato, visão. E também não, não se trata de desmaios.

Às vezes me somem os sentidos que eu dou pra vida. Essas coisas que nos fazem dormir acordados, como querer ser feliz, ganhar dinheiro, trabalhar no que se gosta e até mesmo escrever.

A imagem que tenho da vida nítida, colorida e vibrante, derrete. A idéia da vida bela, esvai-se.

Olho para o espelho e o vejo vazio. Meu reflexo já não está ali. A minha sombra não está mais no chão. Durmo e não tenho sonhos. Viramos um só. Eu e espelho. Eu e sombra. Cá e lá. Fantasia e realidade. Acordar e dormir.

O id (guloso que é), engole o superego (chato que é), e eu é que fico me retorcendo de indigestão.

Vida borrada, imagens misturadas, existência que vibra. Cadê esse tal de eu?

Faço laços com o mundo. E ao tentar desatá-los, faço deles, nós ainda mais apertados. É assim, normalmente.

Mas de repente, eis que "nós" é só "eu". E então eu consigo desatar os nós, e o que era um laço bonito vira puro fio sem-graça. Fio solto no mundo. Procurando por um curto-circuito. Dá-me choque na alma. Perco o meu corpo. Vago por alguma dimensão.

Sei lá onde é que eu existo. Só sei que aqui, eu deliro. Seja lá o que for eu...

terça-feira, 14 de junho de 2011

Louco é o amor, e não eu.




Ei, garoto maldito! É, é com você que eu falo. 

Ora não passa de um bebezinho fresco, que reclama de uma mínima dor muscular como se lhe tivessem amputado um membro, ora parece tão competente que seria capaz de administrar os pepinos do mundo inteiro.

Ora não faz o mínimo de esforço para prestar atenção nas minhas manhas, ora me pega de um jeito tão firme que eu mesma perco o rumo da minha vida.

Peraí...eu disse rumo? Que rumo? A minha vida nem tem um... Não, definitivamente. Não posso achar que a minha vida tem um rumo quando a sua presença na minha vida é tão decisiva. Não posso chamar de rumo quando perder você significaria perder o meu chão. Chão? Há-há-há. Rio de mim mesma. Mentirosa que sou. Pois ter você é justamente abrir mão de ter um chão debaixo dos meus pés.

Meu amor por ti me faz lembrar a infância e Vinícius de Moraes “Era uma casa muito engraçada. Não tinha teto, não tinha nada. Ninguém podia entrar nela não. Porque na casa não tinha chão. (...) Mas era feita com muito esmero, na rua dos bobos número zero”.

Sim, me fazes morar numa casa imaginária. Sim me fazes morar na rua dos bobos. Nosso amor é uma casa que construímos sem material e sem lugar. Numa dimensão que nem existe. Sim, eu sei que falo aqui do MEU amor, e que você me acha louca por te dizer coisas assim, tão sem sentido. Mas saibas que a minha maior loucura é te amar. Não porque você não seja amável, mas pela forma absurdamente maluca que eu te amo.

Não, eu não me mudaria para o inferno com você. Não, eu não abriria mão da minha auto-estima por você. Não, eu não abriria mão dos meus princípios por você. Percebe? Se não é assim, como é que eu posso te amar?  Loucura é isso. Amar sem ser louca. Louco é o amor, e não eu. Acontece que eu não sei diferenciar o amor de mim mesma...


Ps: Eu iria pro inferno, pra te buscar. Menino maldito. Você tem um poder sobre mim que eu mesma desconheço....

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Homenagem ao Superego




A noite cai
A alma levanta
O amor se esvai
Some a santa


 
O escuro é perigoso
O claro não é seguro
Se viver é penoso
Existir é impuro


 
Dá-lhe chibatadas
Dá-lhe punição
As vias certas são erradas
Viver é em vão.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Mundo borrado



É morna a penumbra
Ouço o silêncio gritando
A noite deslumbra
Sufoca-me o seu manto.

Os pensamentos a ruir
Os ratos a roer
A lua a sumir
A existência a gemer.

Os afetos a rarear
Raro, mesmo, é ouvir
A noite a cantar
O coração a zunir.

Sinto o gosto do corpo amarrado
Vejo o rosto do tempo
Existo num mundo borrado
Este é o meu acalento

Cada vez mais perto
O corpo lateja
Não sei bem ao certo
Mas é fato que a alma boceja.

O sentido falta
A palavra é cuspida
Deus é peralta
Só sabe me coçar a ferida.

O sono me invade
Meu sangue abranda
O que é felicidade?
Só sei que a vida a espanta.