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sábado, 2 de abril de 2011

A(s)ma




Eu não preciso que você seja romântico. Eu não preciso que você seja meloso. Eu não quero que você me entenda. Eu não preciso que você diga que me ama todos os dias. Eu não quero que você me elogie sempre. Eu não exijo que você se lembre de todas as nossas datas. Eu não quero que você seja perfeito.

Eu só quero que você acredite no amor. Eu exijo que o meu amor seja importantíssimo pra você. Superlativo elevado ao cubo. Eu tenho necessidade de beijos adolescentes. Eu morrerei no dia em que seus olhos não brilharem mais. Eu respiro palavras, então por favor, não me asfixie. Você pode falar com os olhos. Das suas mãos saem letras, dos seus sorrisos, as palavras brotam.

Diante disso, eu lhe peço: não se cale. Não sufoque o meu coração. Não abafe a minha alma. Pois é nas palavras que eu respiro. É no seu peito que eu existo. É no seu olhar que meus pulmões se afogam em oxi-gênio. E pra mim, nada melhor que isso. Pois tenho alma asmática. E é você quem controla o meu (am)ar.

terça-feira, 29 de março de 2011

O amor sangra




Fale com ela. É o nome deste blog. Inspirado em Almodóvar, visto que o seu filme, do mesmo nome, me desencadeou uma crise existencial feminina, que foi brava. E, trabalhando as questões desencadeadas em tal crise, tive então a necessidade de fazer este blog. É, eu precisei, quase que fisicamente fazê-lo, para poder falar de mim. Balela! Pra poder falar de mim, sim; mas principalmente para poder ler. Isto é, para que vocês me leiam e comentem.

Falem comigo. Comigo, que sou ela. Porque o mundo é masculino. É, sim. Feministas, surtem. Não me venham dizer que o mundo é das mulheres e blábláblá. Tudo o que as mulheres, especialmente as feministas correm atrás, é coisa "de homem" (Gente, tem aspas aqui, viu.) Trabalhar, estudar, ter a possibilidade de não ter filhos, fazer política, etc.

Nós, mulheres, passamos 1/4 da nossa "vida útil" (atenção para aspas, novamente) , sangrando, e quase ninguém fala disso. Tudo o que é feito em prol da mulher é achar técnicas e desenvolver tecnologias para ignorar isso. Tratamentos para não menstruar, absorvente para que mulheres (e homens!) não percebam quando a mulher está sangrando.

Oras, o mundo é masculino. E isso me angustia, obviamente. Porque tento fazer coisa de homem e isso me custa caro. Isto é, trabalho, estudo, decido não ter filhos (ao menos por enquanto), compro absorventes modernos e vezenquando emendo duas cartelas de anticoncepcional para me presentear com um mês sem sangue. Quase-que-um-mês-de-homem. Mas acontece que se o sangue fosse apenas aquele literal, a coisa até que era fácil. Só que, como dizem, "o buraco é mais embaixo".

Ser mulher é sangrar (eu já disse pra metaforizarem, porque me refiro a mulheres e homens como adjetivos, e não como gênero). Porque ser mulher é amar. E que me desculpem aqueles que acham que são românticos bonitinhos e cheirosos o tempo todo, mas o amor sangra. As pessoas sempre relacionam o amor com o coração....por que acham? Oras, o coração é o órgão que bombeia sangue para todo o corpo.

Amor-coração-sangue-mulher.

Disse Colette Soler, psicanalista francesa, que o amor é feminino. Pois é.



Imagem da deviantart

domingo, 27 de março de 2011

Dizer sem palavras, dói




Minha cabeça dói. Tomo tantos comprimidos quanto uma criança come confetis.
Não sei pra que tanta dor. (Se soubesse provavelmente não a sentiria.)
O fato é que a minha dor está dizendo de mim. Dizendo sem palavras. Dizer sem palavras é uma coisa mesmo doída.

Queria eu emprestar palavras pra minha dor de cabeça. Pra ela me falar de um jeito inteligível e indolor.

Céus! Pra que tanta dor assim? Porque não caibo em mim. Porque a minha alma tenta fugir do meu corpo, que não deixa. Ele a amarra aqui, com esta dor. Então é isso: dor de cabeça é a alma tentando fugir do corpo. Dor de cabeça é a coleira com a qual o corpo, egoísta, segura a alma consigo.

Ah, como eu queria fugir daqui! Como eu queria férias de mim. Como eu queria dar uma escapadinha do meu corpo. Eu voltava, depois. Sou boa moça, tenho palavra. Mas agora palavra é o que me falta. Eu só queria respirar em outro corpo. Eu só queria dançar com outros braços, andar com outras pernas. Amar com outro coração, pensar com outras palavras.

Porque palavras, assim como o corpo, me prendem e me libertam. Palavras me acorrentam, sim. Porque só posso dizer as palavras que já existem, para me comunicar com o outro e comigo. Porque o que quero dizer, nunca é bem o que eu digo, e por isso preciso falar e escrever tanto.

Palavras me libertam, sim. Porque quando eu as domino, a cabeça não lateja. Porque se escrevo e falo, é pra tentar me libertar uma existência indefinida. Porque é o único instrumento que tenho.

O corpo me liberta porque me permite ir, vir e sentir. Porque me dá células para existir. Me dá cérebro para refletir.

Mas também, o corpo me prende. Dormindo, acordada. Sonhando, na realidade. Tenho que me virar com o mesmo corpo durante toda uma vida. Não posso ir e deixá-lo, ou ficar e levá-lo. Tenho que passar todo o tempo da minha vida tentando encaixar minha alma no meu corpo. As vezes consigo, e sou feliz. As vezes isso me exige tanto esforço, que a enxaqueca aparece. Nem corpo, nem alma me obedecem. A enxaqueca me toma. Eu tomo o comprimido. Minha existência me comprime. Me entristece, não me deprime.

sexta-feira, 25 de março de 2011

O relógio do tempo






O mundo gira
E isso não é novidade
A humanidade delira
A isso chamam de realidade


Ei, o que estão fazendo?
Ei, para onde vão?
Sabem que estão morrendo?
Ou andam pra lá e pra cá, em vão?


Doando seu tempo para grandes empresas
Ganhando algum sustento
Querendo mesmo, é virar a mesa
Mas lhes faltando algum talento


O relógio não espera
A vida não deixa de correr
Só temos esta vida: não foi feliz, já era
Acorda, não há tempo a perder!


quarta-feira, 23 de março de 2011

Viúva




Sou uma jovem viúva. Quando pequenina, casei-me. Dizem que hoje em dia isso já não acontece mais; não sei, mas na minha infância isso acontecia o tempo todo. Pois foi aí que casei muito jovem com um moço. O tal moço parecia extremamente saudável, tinha olhos que fingiam brilhar, quando na verdade, me hipnotizavam.

Daí que esse moço me enganou. Parecia saudável, mas rapidamente descobrimos-o gravemente doente. Após um período longo de convalescença, tratamentos paliativos, doença em estado terminal, aparelhos respiratórios, tudo pra prolongar uma vida enferma que não acabava...eu decidi assassiná-lo. Sim, sou uma viúva-homicida, eu confesso.

Mas como nada na vida é simples assim, o que acontece é que o falecido adora ressucitar. E eu, descobri que tenho um lado perverso, que adora matá-lo. E então eu vivo disso: de assassinar o falecido.

É delicioso acabar com ele. Sinto-me inteligente, revigorada, decidida, auto-suficiente. E ganhei de presente do mundo, uma doce ignorância que me permite esquecer algumas coisas, só pra ter o prazer de descobri-las de novo.

É aí que sempre me surpreendo, diante do moço tomando a vida para si de novo. Renasce, aparentemente revigorado, de olhos igualmente hipnotizantes, ataques de riso sedutores. Mas logo cai enfermo novamente. E eu torno a matá-lo. Mato-o todos os dias, mas ele ressucita como ninguém. Pois se eu o mato, é para que ele possa nascer novamente. Porque o meu falecido chama-se amor romântico. Jovem-viúva-homicida. Eis o que eu sou.