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terça-feira, 10 de maio de 2011

Eu não sou louca. Ao menos, não-toda.



Eu sou tão feliz que não posso...
Eu sou tão infeliz, que não posso...
Não posso. E não poder, tem cheiro e tem gosto de sei-lá-o-que.
E eu nem posso explicar o que é que não posso, tamanha a minha impotência. Ou prepotência.

Pode parecer que eu mergulho inteira em toda e qualquer coisa onde eu meta o bedelho.
Mas isso é mentira, e não é porque eu não queira, mas é porque não posso.
Então eu sou medrosa e coloco só um pezinho... depois outro...desisto...retomo...
insisto.

 
Uma vez eu me joguei. Não sei bem se foi por distração ou por falta de opção. E aí eu fui tão feliz que pensei que morreria ali mesmo, em plena felicidade. Pensei que, de tanta alegria, eu desfragmentar-me-ia...ia...ia...não fui.
Mas não posso me descuidar assim.
Felicidade em demasia é doença grave. É perigosa. Felicidade demais leva à morte. E eu nem sei por que. (Sou ignorante e algumas explicações simplesmente não me interessam.)

 
E daí, no outro oposto, acontece o mesmo.
Tudo o que é demais, me mata. Graças a sei-lá-o-que – talvez a Deus - talvez a mim.
Eu nunca fui tão triste-de-morrer. Ou numa dessas eu fui e me esqueci.
É, é possível.

Uma vez pensei que a vida era um precipício, e que se eu me mantivesse longe do abismo, estaria segura. Ah, doce engano!
A vida é uma corda bamba. Se fico feliz demais, caio pra um lado. Se fico excessivamente triste, caio para o outro. Sem seguranças, sem garantias.

Acho que naquele dia em que eu fui feliz demais, eu morri, sim. Mas algumas mortes são boas. Algumas mortes são necessárias. O que será que morreu em mim naquele dia? Não fui eu, inteira, que morri. Sou não-toda louca e tenho sanidade para pelo menos disso saber. Mas alguém morreu em mim, isso é fato. E numa dessas, eu nem gostava daquele meu pedaço, do qual eu abri mão naquele dia em que eu estive no céu. (é, leitor, eu estava mesmo no céu, não é metáfora – mas poderia) Pensei que eu ia virar pó no universo. Mas eu já tinha sido tão feliz ali, que já não mais me importava se eu seria pessoa ou pó. Vocês já foram felizes assim?

Daquele dia em diante eu decidi que tudo o que viria, me seria plus, extra, lucro. E eu continuo lucrando, já isso aconteceu há uns quatro meses. Bem, mais ou menos a idade desse blog. Esse espaço aqui deve ser o meu lucro,  o meu resto.

No dia seguinte eu já me esquecera que tinha vivido aquele momento de felicidade obscena na minha vida e tornei a ser ranzinza, a reclamar... Porque as vezes é disse que eu vivo.

De reclamar?
Não.
De esquecer.

38 comentários:

Nicole Smith disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Yzzy Le Fey disse...

Todo dia morremos um pouco, e desse mesmo pó renascemos como uma Phoenix, que se desmancha em suas próprias chamas e se faz novamente bela de seu próprio pó.
Esquecer é bom, é uma forma de suportar um mundo tão pesado, e sim, que pesa muito nos ombros em dias como os de hoje, em que já não resta mais do que a esperança segura entre dedos e unhas desesperados para um novo amanhã.

Lindo blog.

Beijos,
@yzzylefey

Karoline Serpa disse...

Sempre quis saber por que "não toda", agora sim.

Lendo este post "pensei que, de tanta alegria, eu desfragmentar-me-ia...ia...ia...não fui".

"desfragmentar-me-ia...ia...ia..." Que bela imagem! Lembrei-me de Pablo Neruda em O Carteiro o e Poeta, explicando a Mário como a oscilação das ondas do mar é importante aos ouvidos do poeta.

E porque é "não toda"... imagine se fosse toda, hem?

Camila Márcia disse...

E todo o dia morremos e nascemos para novas experiências. É bom que seja assim, por mais que na hora doa... nada nesse mundo é por acaso.

bjs.

Carina B. disse...

"Sem seguranças, sem garantias." É bem por aí, mesmo. E também acho que é preciso morrer um pouco, pra então viver.

Impressionante mesmo como dialogamos sem saber nos textos, é muito bom me ler nas tuas palavras, a solidão de existir dói menos. Obrigada. :)

Sandro Ataliba disse...

O problema todo é exatamente pensar muito sobre a vida. O melhor mesmo é viver toda a alegria e toda a tristeza que nos for oferecida, e no fim a gente vê no que vai dar.
Beijo

Vanessa Souza Moraes disse...

Se as mulheres não falarem, perecem. Nem existimos no inconsciente - nem nós, nem a morte temos inscrição. Nosso falo é a fala.

Impulsiva disse...

Alicia você escreve como poucos, já deveria ter um livro...texto sensacional, em vários trechos eu me vi nessa confusão meio explicada, rsrs.
O meu blog também nasceu de uma dessas fases "pós"...
Beijos, adoro te ler sempre!

Andressa disse...

Tudo o que é (bom) demais, me mata, se (me) realizo. Extrapola o todo. Não.

Mar disse...

E queima a face em lagrima furtiva que escapa da vida

Andy z.) disse...

esquecer: a fuga do passado. Não que isso seja negativo. Excelente o lucro ;*

Verô. disse...

"Morrer" muitas vezes é tão bom quanto viver!

Oh! como te entendo, Alicia... chega a assustar!


Bjão!
:)

Marcelo Henrique Marques de Souza disse...

40% tem que ser demais.. o restante, nem de mais, nem de menos...

Mente Hiperativa disse...

"Eu não sou louca. Ao menos, não-toda"

UFA! Ainda bem, a segunda parte salvou a frase. O que seria de nossa vida sem um pouquinho de loucura? O que seria de nós sem um pouquinho de loucura?

Bjo

M. disse...

Grande texto! às vezes é preciso esquecer...Mas nesses casos, por norma, o máximo que conseguimos é lembrarmo-nos de esquecer:)

Fernand's disse...

eu me joguei assim e em um momento dessa queda eu não tive onde segurar... alcancei o chão, ali fiquei, só depois que levantei, meio enferrujada e com alguns arranhões, mas foi tão bom que até hoje as lágrimas se misturam com os sorrisos e eu não esqueço. não quero esquecer.


bjsmeus

Rívia Petermann disse...

Achei ótimo...o fato é que todos os dias algo morre,nasce e ressurge em nós - somos meio fênix,como disse uma comentarista.Assim como sempre pegamos algo das pessoas que conhecemos e damos algo de novo a elas,bom ou ruim.Com ou sem extremos,cada um do seu modo.Ah,e ser tão extremo não é nenhuma deficiencia embora as vezes soe como tal,é até mesmo força,personalidade...saber sentir.

Belo post.Abraços!

Ayanne Sobral disse...

...
Eu já fui feliz assim, em demasia. Sim, Alicia, também já estive no céu [talvez, e bem talvez, seja metáfora]. Bom, aí eu percebi que o céu, ah o céu nem é isso tudo. Pelo menos, não pra mim. E então precisei deixar que algumas pessoas morressem, e que algumas coisas morressem e que, com eles, um pouco de mim morresse também. E foi difícil. Doeu.
Mas o que ficou fui eu mesma. De verdade. E, bom, esse é o meu lucro.

Posso dizer? Nesse mundo louco real/virtual foi um grande lucro encontrar você e a tua escrita. Me sentir traduzida e me perceber nas tuas linhas é um privilégio, você sabe. Obrigada.

Esse texto foi tão inteiro - lido em carne quase-viva - e tão tátil, que inundou o canto do olho...

E eu sou tua fã mesmo. Fim.
(:

Guilherme disse...

Ninguém é normal olhando de perto.

Lai Paiva disse...

Muito bom o seu texto. Palavras tão pertinentes à realidade de tantos, inclusive a minha. Gostei bastante e até sinalizei no meu twitter. Visite-me tb no www.dispa-me.blogspot.com Bj

Teresinha Oliveira disse...

Já fui feliz assim, sim. O dia perfeito, o momento perfeito. Ou me enganei fingindo que era? Ora, D. Alicia...Por que me faz pensar nessas coisas?

olhar disse...

nada como um novo dia!

Muito bom estar por aqui!

Bia

Breno Sousa disse...

Flertar com o precipício é a maior declaração de amor à vida.

Liana disse...

adorei o "eu não sou louca. ao menos não toda". Me descreve bem...rs...

Ana Carolina Vingert disse...

Sempre gosto de falar com ela.
Talvez porque eu seja não toda, louca.

Eu ainda tento esquecer algumas mortes.
Seu texto especialmente hoje me fez pensar...

Se sou mesmo corajosa, ou só uma covarde que não teve tempo de fugir.

beijos baby.

Bruniele Souza disse...

Acho que a felicidade é algo meio esquisito...Na verdade, a plenitude de qualquer coisa nos (en)farta! Ser alguém no mundo, viver e ter vontade para tal é ansiar por mais uma dor, mais um obstáculo, mais uma emoção que nos faça tremer, gemer, rir, chorar, amar, odiar...A vida é linda por ser assim, pelo menos pra mim!ehehehe...bjus

Graça Pereira disse...

Ás vezes, é tão bom morrer...nos braços de uma grande amor! Aí, vem o céu, o purgatório e talvez um dia...o inferno!
O importante é renascer sempre...porque há vida para além da "morte"!!
Beijocas
Graça

Confissões de uma borboleta disse...

Alícia...as suas idas e vindas e exitações literárias me pareceram encantadoras. Obrigada por me seguir. Virei aqui outras vezes. Beijos

Marco de Moraes disse...

Alicia, me identifico muito com este texto!
É certo que virei aqui mais vezes!

Uma boa semana!

Marco de Moraes disse...

Alicia, quando puder, acesse:

http://palavrasproferidas.blogspot.com/2010/12/querer-bem-comum.html

Beijos.

Lu disse...

Muito bom!!!
É isso mesmo: somos tudo isso, um misto de cada coisa e mais um pouco...
Adorei o texto!
Beijo!

Patrícia Gonçalves disse...

Alicia, muito bom te ler, me vi com todas essas questões, santa imprecisão esta do nosso viver eterno.

bjs

Naiane Julie disse...

Seu texto interessante com toque de humor me fez lembrar este trecho de Nietzsche:
"O homem é corda estendida entre o animal e o Super-homem; uma corda sobre o abismo; perigosa travessia, perigoso caminhar, perigoso olhar para trás"

Abraços

Cafundó disse...

Eu também vivo nessa corda bamba. Segundo o Miguel Torga o artista sem desequilíbrio está perdido!
Magnífico! Beijos.

Marília Felix disse...

Ahh, adorei a prosa Alicia!

Me identifiquei muito com o título!

=)

Beijos.

Lívia Azzi disse...

Sim, Alicia!

Já me senti feliz assim, voei, morri e cai com as partes de mim que ficaram. É assim: as alegrias dessa vida não têm nem uma pontinha de garantia!

;-)

Douglas disse...

Loucura é condição humana, não vem moldada, nem em potinhos. Ainda bem..

Van disse...

Já fui feliz assim, de me estilhaçar de felicidade.

Também já fui triste assim, de me repartir de tristeza.

Felicidade é bomba, tristeza é navalha.