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sábado, 14 de maio de 2011

Um eufemismo para o que sinto




Hoje eu quero uma palavra apertada. Bem apertada. Que me tire todo o ar do peito, e com ele, todas as coisas que sinto. Sim, todas. Até as boas. Estou disposta a abrir mão de tudo nesse momento.

Hoje o meu sentir só sabe doer. E eu quero uma anestesia. Eu, que vivo de palavras e não de remédios, quero uma palavra com efeito medicamentoso – que me anestesie, por favor. Eu não quero pensar. Eu não quero sentir. Minha alma treme de frio.

Sinto o cheiro e a presença da morte aqui. Ofegante. Respirando no meu ouvido, e eriçando os pêlos do meu corpo. Ela está sempre comigo. Isso é o que me garante que estou viva: a possibilidade de ser alcançada pela morte. Eu a tenho sempre perto, sem vê-la, no entanto. Pois hoje eu a enxergo. Não há recalque, repressão, projeção ou qualquer outro mecanismo de defesa capaz de me cegar. Enxergo a coisa crua e doída e é nisso que me transforno.

E digo-lhes: a morte é feminina. Ela sangra. Vejo os seus contornos bem delineados e a sua ausência absoluta de defeitos. A morte é perfeita, apesar de feminina. Ela se mexe constantemente, como uma criança hiperativa com pais distraídos. Ela não pára um instante sequer. A morte é avassaladora, assim como é o amor.

A morte é o amor de um jeito insuportavelmente doído. Ela leva uma pessoa, leva outra pessoa ...ok. Mas é de repente que eu sou tomada por um susto. É de repente que ela passa por mim, e eu sinto o seu vento congelante rasgar a pele da minha alma. É de repente que, ao olhar para o lado, vejo-a se movimentar na direção de alguém que eu amo.

E aí, então, sabe o que é que eu posso fazer? Nada. E fazer nada é a coisa mais doída que há pra ser feita nesse mundo. Todas as células do meu corpo se retorcem de dor. Fazem-me querer avançar os dias, passar o tempo, gastar a vida. Não posso. Isso seria a minha própria morte. Encurralados. Eu e você estamos.


26-04-2011

29 comentários:

Alicia disse...

Costumo escrever e postar no mesmo dia, ou no máximo, na mesma semana. Mas dessa vez não deu. Essas letras não foram escritas, mas rasgadas em mim. Precisei esperar a alegria me invadir para poder digitá-las. E hoje estou bem feliz, leitores.

Fabrício Franco disse...

Seu texto é um anátema, Alicia. Insuportavelmente antagônico. Estou aqui, meio do caminho, sem saber se tomo a forquilha à direita ou esquerda. Alegria matizada de tristeza? Melancolia jovial? O que a fez produzir tal texto, qual foi o gatilho? (Essa última pergunta é o que me martela as têmporas).

Beijo!

Breno Sousa disse...

Estou congelado, enregelado, prostrado, exaurido, entontecido, amedrontado, asfixiado e subjugado. Por enquanto é só o que sou capaz de dizer sobre o post.

Nara Sales disse...

A certeza de que estamos todos encurralados é a única que podemos ter. Dói, não? Mas, é preciso que a gente sinta tudo, é preciso digerir cada pontada, é preciso olhar tudo de muito perto.

Impulsiva disse...

Conseguiste me apertar o peito...tantas pessoas poderiam ter escrito este texto...mas você traduziu em palavras todas as angústias que a morte traz.
Tão triste quanto real...

Ayanne Sobral disse...

Ay! Sim, doeu.
Essas palavras me doeram como a dor que elas escancaram, que é dor de parto, invariavelmente feminina. Que é dor de morte. De a-mor-te.

Abraço. É a única palavra que eu conheço e que poderia te oferecer para anestesiar a dor, para proteger sua alma do frio. Ou para, simplesmente, me alegrar e compartilhar da tua felicidade.

Um abraço, querida, daqueles que esmagam a alma. E obrigada por deixar eu me encontrar nas tuas palavras e me perder nelas. E morrer e viver tanto através delas.
Obrigada por sua amizade - real e a distância. Mais real que distante.

Obrigada pelo abraço que este seu texto me deu e que trouxe um pouquinho de calor pra cá.

Toda admiração do mundo. Toda.

Ayanne Sobral disse...

Aaaah, tô lendo pela milésima vez e não quero mais ir embora daqui.

Essas palavras têm efeito medicamentoso.

Posso ficar?!

M. disse...

Gastar a vida é a melhor forma de enganar a morte:)

Belo texto.

Camila Márcia disse...

Ah esses dias de sofrimento... É tão ruim sentir a dor que devora, que machuca, que rasga e que muitas vezes é incompreendida...


beijinhos, bom fds.

Assis Freitas disse...

no mesmo laço a mesma dor - corpos lado a lado


abraço

Az.) disse...

entendo como é se sentir assim. tudo dói. fico feliz que esteja bem agora. ;*

Simone Lima disse...

Totalmente impressionada!! Que texto lindo!!
Textos lindos!!

Beijooo'o

Leonard M. Capibaribe disse...

"Sentimento ilhado, morto e amordaçado, volta a incomodar..." Terrível se sentir preso assim... Muito bom seu post, apesar da dor... Parabéns!

Amanda Lemos disse...

Gostei bastante do Blog, :)
Muito interessante !
Deixo o meu aqui, caso queira dar uma olhada, seguir...;

www.bolgdoano.blogspot.com

Muito Obrigada, desde já !

Lívia Azzi disse...

Viver é a-mor-te-cer...

;-)

Du disse...

"A morte é o amor de um jeito insuportavelmente doído."

Eu morri assim, só esqueci de avisar os parentes...

Ingrid disse...

Alicia,
é a dor e a necessidade infinita do calor..
do amenizar e embalar..
beijos..

Brunno Leal disse...

Belíssimo texto. Forte e verdadeiro.
Parabéns!

LuH disse...

Fortíssimo!
Até estremeci diante da mesma substância que tenho contida...

Encurralados!

VidAMORte

Abç

Thaís Alves disse...

Não gosto deste jogo com A MORte :) Prefiro pensar que é uma dança e que um dia já não se pode recusar. Beijos!

Lara Oliveira. disse...

Adorei o jeito como descreveu a morte, com amor, e afins. Ficou ótimo, parabéns mesmo pelo blog, escreves muito bem!

Van disse...

ai ai

dor de ler

Beijos Alicia

Leo disse...

Amor tece
Amortece
a morte
tece.

Carina B. disse...

As palavras que rasgam são as mesmas que costuram. Elas só precisam circular um pouco, antes.

EU tenho muito isso, de só conseguir postar coisas difíceis quando estou melhor. :)

Um beijo!

Cafundó disse...

Toda vez que volto aqui entro em êxtase. Me lembrou Cazuza: "Eu vi a cara da morte e ela estava viva..."
Abraços!

Eider Fabrizio disse...

Eu pensei que heróis fossem imortais..

Mas ninguém viu o que eu vi...
Ninguém iria querer ver o último fio.

Agora a presença se faz tão ausente que o buraco aberto é aquele que nunca mais fechará, nunca..
E esse nunca, com sabor de sempre me assusta, me apavora..

Ele se foi..
Eu estava lá, ninguém viu o que eu vi..
Eu olhei nos olhos da morte, cara a cara..
Ela fede a lágrima e o sempre, pra sempre..vira saudade...

Andressa disse...

mas ainda assim o amor existe: mesmo sendo
um ontem, mesmo sendo uma lágrima,
mesmo sendo uma rosa esquecida
num quarto azul.

(Sylvia Beirute)

Multiethnic disse...

Encurralados ficam todos. seria ruim nunca ficar.

Multiethnic disse...

Encurralados ficam todos. seria ruim nunca ficar.