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domingo, 10 de julho de 2011

Poema insosso




Assopra e faz a vida mexer
É só o vento, não há no que crer
Uma coisa mais outra coisa não é destino
É coincidência, nada de divino.
A alma treme
A existência geme
Um pouco de sorte da vida - a gente espreme.

Tipo Macabéa, mas inferiorizada

Lá vai
Moça bonita do laço de fita
Lá vem
Ela procura, procura, mas nada tem
Sem-graça que só ela
Sorriso sem janela
Abre-se toda para o vento
Balança pra lá e pra cá, num existir lento
Demora pra tudo - fora de si
Por dentro, é acelerada e ri
Ah, menina desengonçada
Só sabe sorrir, e mais nada.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Quero comer um pedaço da sua alma




Eu te amo de um jeito estranho. Isso não é novidade. Você me dá uma certa fome, que comida nenhuma resolve. Quero comer um pedaço da sua alma com um gole de amor puro. Embebedar-me da tua existência e esquecer da minha. Olha, isso soa muito louco. E talvez seja mesmo. Sei que às vezes você se assusta comigo. Sei que às vezes você e a sua alma se esquivam de mim. Sei que o meu amor é puro exagero e que eu sou desengonçada com isso.

É que parece que tudo aqui dentro de mim é desproporcional. Tenho um corpo até pequeno, na realidade. Mas às vezes ele é tão grande... fico voando aqui dentro. Outras vezes ele é tão apertado... fico claustrofóbica comigo. E ainda tem a alma. Quando estou bem, nem a sinto. Acho que ela se cala, ou se adapta ao tamanho real do meu corpo. Ou, ainda, sou apenas eu que deixo de prestar atenção nela. Mas na maior parte do tempo eu não estou bem. Vamos lá, não se ofenda. Sou incrivelmente feliz ao seu lado. Mas você sabe, né?  Tenho essa minha insatisfação – é de estimação, por favor, não a tire de mim! – constante. Não é um sofrimento, é um querer que não se cala. Pois bem, é esse querer tagarela que faz com que eu tenha quase que constantemente a sensação de que algo está muito esquisito aqui comigo.

Ora a alma voa, ora a alma pula, ora a alma some. Ora o corpo pesa, ora ele parece nem existir, ora dói. E assim corpo e alma se flertam e se escapam quase todo o tempo. E eu, que nem sei se sou mais corpo ou mais alma, fico aqui, vítima deles. É quase um bullying o que eles fazem comigo. Ah, mas que tendência tenho eu a me vitimizar! Logo eu, que tanto gosto dessa brincadeira que corpo e alma fazem. Logo eu, que adoro ficar em cima do muro! E aí vem você, me cobra posicionamentos diante da vida, me lembra que existe uma realidade e me convoca a olhar ao meu redor. Ufa! Porque se não fosse assim, talvez eu me ensimesmasse a tal ponto, que nunca mais voltasse.

Tenho uma tendência autista, um amor pelas coisas que não se explicam, um apego pela falta de sentido. E todos os dias você me salva de mim mesma. Obrigada. Por tudo. Inclusive por não deixar que eu me alimente da sua alma.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Eu existo demais



É tudo muito esquisito. O meu corpo não se sente à vontade no mundo. E eu não me sinto à vontade no meu corpo. Tenho uma existência irritante que se põe a fazer perguntas sem respostas, incessantemente. Algo me corrói e tudo o que eu não sei é me render. É isso. Não se trata de uma escolha proposital. Eu sofro é de falta de recursos. Talvez eu desistisse da vida, se soubesse como. Eu possivelmente desistiria do amor, se tivesse alguma notícia de onde é o caminho da forca.

Mas eu só sei ver o brilho, insisto como ninguém e faço da esperança a minha amiga chata. Eu perdoo. Facilmente. Sou fraca e o rancor me exaure. Tenho ótima memória para fatos, mas sou puro Alzheimer com lembranças desafetuosas. Se você olha além de mim, se você me toca buscando me sentir, eu me desfragmento. Eu não acho isso nem um pouco bonito, racionalmente. Mas é incrivelmente prazeroso quando você me faz em pedaços.Porque quando eu fico brava, quando estou fula, me sinto inteira. Toda cheia de razão, toda cheia de argumentos, toda toda. Mas é quando você me encosta que eu vivo, de fato. No mais eu só sei existir.

Sou um corpo desadaptado que carrega uma alma desadaptada, mas com um "q" de conformada com essa minha inaptidão pra viver. Mas, ah, quando você me toca... eu não sei dizer. É como se a minha alma chorasse. Como se a minha existência pulsasse. Como se cada parte do meu corpo fosse pra uma dimensão diferente, e então eu ficasse liberta. É isso. Quando você me aperta, me deixa livre do meu corpo. Quero colo. E não é um pedido de menininha carente (apesar se eu ser bem boa nisso). Quero colo porque quero que você dê conta do meu corpo, ele é pesado demais para mim . Preciso respirar, mas eu me consumo tanto... Consuma-me. Pra eu poder sumir um pouquinho.

sábado, 2 de julho de 2011

Humores, amores, cores.






Você estava lá e eu também. Eu não te via, você não me enxergava e o tempo passava. Foi num dia comum que você se encantou por uma saia comum. Nesse dia eu tive sorte, porque a saia era minha. E foi assim que você não me viu (de novo), mas quis me ver. E foi assim que eu vi os seus olhos brilhando. E eu, narcisista que sou, ali me apaixonei. Primeiro por mim e depois por você.

Uma vez eu fui adolescente. (Não de alma, de corpo mesmo. Sim, eu sei que adolescente ainda sou, é claro, pois assim é a alma feminina.) Naquele tempo eu tinha um “anel do humor”. Conforme eu mudava de humor o anel mudava de cor. E eu me sentia toda especial por provocar alterações na cor daquela coisa. Eu era responsável pela existência de alguma cor no mundo. E isso era incrivelmente bonito.

Uma vez eu olhei nos seus olhos. E percebi que conforme você me adorava ou me gostava, me odiava ou me amava, não me suportava ou me desejava, os seus olhos mudavam de cor. E eu me senti absolutamente importante por provocar mudanças naquelas bolas de gude que o seus rosto carregava, que ora eram brilhantes, ora eram opacas.

Mas aí a coisa foi mais longe. Fiquei intrigada e curiosa: como é que ele consegue? O que é que eu sou para ele? E então eu descobri que dependendo da cor do seu olhar, a minha alma mudava de cor! Êxtase ao descobrir que eu tinha uma fábrica da Faber Castell internalizada na minha áurea. Plenitude ao me dar conta de que as cores, os humores e os amores eram mais, muito mais do que pobres rimas.

Eu queria saber o que tinha por trás daqueles olhos instáveis. Você queria saber o que havia embaixo daquela saia. Mistérios bonitos, cada um ao seu modo. Tinha tudo pra ser um amor desses que a gente lê e se encanta, mas que é só literatura. Desses amores platônicos que só por serem platônicos é que são eternos. Mas, não. Nós fomos atrevidos e curiosos. Quisemos saber o que é que o outro escondia.

Eu enfrentei os meus fantasmas, encarnados no seu olhar. Você enfrentou os seus deuses, que se escondiam debaixo da minha saia de crochê. Uma saia cheia de nós. Um par de olhos cheios de eus.

Mas ainda assim não bastava. Mistérios desvendados, nós desfeitos, e queríamos mais. Saber mais. Ocultar mais. Brincar mais. Mais eu, mais você.

E é desde então que a gente vem procrastinando o nosso fim. Tudo o que nasce está condenado à morte, até mesmo o amor. Eu não sei até quando isso vai durar. Eu não sei se vou te amar para sempre. Eu não sei até quando você vai me amar. E eu não me importo.

Porque pra mim o amor é justamente isso: é não estar inscrito no tempo. Se amanhã os nós acabam, se amanhã os nós viram uma linha soltas, se amanhã nós acabamos, nós cansamos de somar eus para fazer mais nós, eu ainda assim continuarei te amando, em algum lugar. Porque o infinito é a absoluta ausência de tempo, e é lá que o meu amor ecoa.


(Mas por via das dúvidas, todas as noites eu refaço os nós que você desata. Ao melhor e mais mitológico estilo Penélope-ao-avesso)