1 - Sinto saudades do menino besta que você era.
Da cara de
pseudo-segurança com a qual me olhava, e me deixava sem-graça.
2 - Sinto saudades
da sensação paranóica que eu tinha de que você lia os meus pensamentos.
De todo o esforço
que eu fazia para que os meus olhos, ou cada um dos meus poros, não denunciassem que eu já te amava, muito antes de dizê-lo.
3 - Sinto saudades
do esforço que eu fazia pra disfarçar a taquicardia que você me provocava a todo o instante.
Antes de te amar,
eu nunca tinha sentido o meu coração. Eu nem sabia que ele ficava mais para o
meio do meu corpo do que "do lado esquerdo do peito", como dizem. (É,
o amor ensina biologia, minha gente)
4 - Sinto saudades
do brilho dos meus olhos, que timidamente olhavam para o brilho dos seus.
E você nunca
ficava encabulado quando eu te fitava com a curiosidade com a qual uma criança
que mora na cidade fita o mar pela primeira vez.
5 - Eu sinto
saudades da hiperatividade adolescente das suas mãos, que estavam em todos os
lugares ao mesmo tempo.
6 - Eu sinto
saudades do sabor dos seus sonhos, quando você acreditava na beleza da maioria
das pessoas.
7 - Eu sinto
saudades dos seus carinhos gratuitos, que vinham sempre acompanhados de
demandas dos meus carinhos, que tímidos que eram, tinham medo de te assustar.
8 - Eu sinto saudades do coelhinho, das tardes e noites de sótão,
Dexter, Lost, coca-zero, chocolate, dos poemas do Neruda, das legendas
românticas nas fotos do Orkut, e da trilogia do Senhor dos Anéis que eu nunca
conseguia assistir acordada.
9 - Eu sinto saudades de quando você tinha alucinações visuais ao
me ver, porque só isso explica o fato de você não enxergar as minhas estrias, o meu mau-humor, as celulites, as chatices com picuinhas, as gordurinhas
localizadas, as incongruências, ou
quaisquer defeitos, e só sabia me achar perfeita.
Cada uma dessas saudades me dói profundamente, cada vez que me
acometem.
10 – Mas a principal é que... Eu sinto saudades de quem nós éramos naquele tempo. E essa é
a saudade que mais dói, porque eu não quero voltar no tempo. A nostalgia é uma
delícia quando se deseja ser ontem. Mas eu amo ontem o suficiente para
deixá-lo. Aí a nostalgia fica esquisita. Até porque, o ontem continua hoje. As pessoas que éramos coexistem em nós, ainda hoje, mas são óbvias demais para que nós a percebamos. Tenho saudades porque as saudades também provocam dores boas. Sei que
eu te amo porque tenho saudades de ti todo o tempo, dos muitos homens e meninos
que coexistem em você, inclusive de todos os que você virá a ser. Sinto saudades do
que ainda nem nos tornamos. Sei que eu te amo porque o passado, o presente e o futuro
ficam todos mesclados em mim. Sei que eu te amo porque me fundo a você, como
num bolo mármore, onde você pode ver o que é um e o que é outro, mas não
consegue separar o que é um e o que é outro. Sei que eu te amo porque esse
negócio que eu sinto e chamo de amor, me põe a escrever um texto
esquizofrênico. Mas é assim que eu te amo, barão, de um jeito esquizofrênico.

