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quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Quero me vomitar

Minhas ausências estão transbordando.
É estranho estar cheia de vazios.
Tenho tido náuseas e ânsias de vômito.
Queria poder vomitar todo o amor que sinto.
Enjoei de mim, estou cheia de amar, não quero mais vazios que se enchem.
Quero um pedaço de puro vazio.
Sinto como se todo o interior do meu corpo, que sempre senti oco, estivesse cheio de amor.
Digo "é o calor", como se eu acreditasse que a temperatura do mundo e a temperatura do meu corpo fossem mesmo coisas diferentes.
Cansei de me misturar ao mundo.
Cansei de me misturar às coisas e às pessoas.
Cansei de ser madeira, plástico e comida.
Cansei de ser letra, prosa e poesia.
Eu só queria descansar da minha existência.
Deixa eu te ser só por amanhã.
(Hoje não, preciso me despedir de mim.)
Me empresta a sua carne, divida a sua pele comigo.
Permita que eu enxergue com os seus olhos, que eu sorria com os seus lábios.
Preciso do seu cérebro para organizar as coisas que sinto.
Cansei de sentir.
Sinto muito.
Preciso sentir menos. Preciso sentir mais. Preciso sair daqui, estou claustrofóbica dentro do meu corpo.
Preciso de ar.
Preciso de desamor.
Preciso não precisar.

(Então alguém liga o ar condicionado e eu deixo isso tudo pra lá)

Quero uma frente fria na minha alma.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Sobre a TPM da mulher, e não essa que o imaginário dos homens carrega


imagem daqui


Não sou dona do meu corpo. Isso é uma coisa estranha. Tive educação religiosa e vivi um bom tempo da minha infância e adolescência entre freiras. Não sei se por isso, não sei se é coisa minha, não sei se é chatice minha, mas encasqueto com a ideia de que o meu corpo não é meu. Ele pertencia aos meus pais, quando eu era pequena e mesmo depois de adolescente, quando eu precisava fazer campanha pra que eles me autorizassem a pôr piercing no umbigo. Ele pertencia a Deus quando eu acreditava ser católica. E talvez se eu não gostasse de pensar (ou de pensar que penso) eu acreditasse que hoje, o meu corpo pertence ao homem que eu amo
.
Mas quando eu afirmo, hoje, que o meu corpo não me pertence, refiro-me a alguma outra coisa. É claro que eu sou dona dos meus movimentos corporais. Posso andar, dançar e mexer a barriga de um jeito que a maior parte das pessoas não consegue, porque eu mando nos movimentos do meu corpo. Mas isso não quer dizer que ele me pertence, de fato.

(Se você é homem e tá pensando aqui que eu sou completamente louca e chata, favor parar de ler a postagem aqui, e nem se atreva a comentar dizendo que as coisas são assim mesmo e blablablá autoajuda barata.)

Meus parênteses podem dar margem para as pessoas chatas (tipo eu) dizerem que sou sexista. Mas me refiro aos homens, simplesmente porque vou dizer aqui da influência que os hormônios têm no corpo de uma mulher. Os homens podem achar que essa coisa de TPM é balela, desculpas para as mulheres terem carta verde pra ter chiliques sem se responsabilizar por eles. E muitas vezes isso é verdade. Então, quando digo de TPM, refiro-me não às oscilações de humor ou vontades de comer chocolate, mas falo de como é uma coisa sem explicação, isso de se sentir uma estranha dentro do seu próprio corpo. Não que eu me sinta confortável com o meu corpo nos outros dias, mas isso acontece de um jeito diferente. Normalmente esse desconforto de mim mesma se reflete na roupa que não fica do jeito que eu queria, no espelho que me mostra de um jeito que não é o que eu imagino, na pele que tem uma textura que não corresponde à imagem da gostosona da revista, photoshopada. Na TPM, essas representações caem. Fico triste e não consigo etiquetar um motivo. Me sinto deslocada do meu corpo, e não me parece que o problema seja a roupa. As pessoas dizem coisas que são extremamente desagradáveis, o mundo gira muito devagar, e eu sei que não é o mundo de fora que está estranho, mas o mundo de dentro. 

Sim, eu sei que na TPM o nível de estrógeno e progesterona se elevam, alterando a comunicação com os neurotransmissores e nhenhenhém. Mas eis que saber disso não basta. Ou quando você tem dor, o fato de você saber qual é a causa dela, faz parar de doer? Saber intelectualmente não serve pra nada. Qualquer um que já se apaixonou ou já tentou fazer regime, sabe disso.

Enfim, pra variar estou sendo prolixa. Mas o que eu quero dizer é que eu não mando no meu corpo, embora eu more nele. É como se eu não tivesse casa própria, mas pagasse aluguel. As coisas não são do jeito que eu queria, eu sempre tenho muitas ideias de como poderiam ser melhores, e eu nem tô falando de celulites, estrias, varicoses ou todas essas merdas que a mulher tem muito mais propensão a ter do que o homem. Porque sangrar todo mês não bastaria, né, deus? Tem que nos presentear com um monte de perebas, nos fazer gestar, parir e amar, que é a coisa mais difícil de todas. Daí depois de tudo isso, vocês ainda querem que eu seja cristã?

(Obs: esta última frase é uma IRONIA, o post é sobre TPM e não sobre religião. Assim, só pra deixar claro)            

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Sobre o aborto


Ontem o assunto comentado no twitter era o aborto. Devemos proibir? Liberar? Qual é a posição que cabe à sociedade tomar diante de gente irresponsável? (Porque pra engravidar sem querer, há que se ter no mínimo, uma dose de irresponsabilidade). Daí eu disse que ia dar um pitaco, e eis que surgiram várias discussões.
O pitaco que dei em no microblog foi o seguinte: Acho que é a mulher quem deve decidir se quer ter o filho, se não quer...e o homem só tem que calar a boca e assumir a decisão da mulher.
De repente o que o pessoal tava discutindo comigo era a questão de sexo, de gênero, nem mais aborto era. E é disso que eu quero falar em mais de 140 caracteres. Não das implicações políticas e sociais do aborto, mas do lugar da mulher nessa decisão.
O fato é que pro homem, nesse sentido, é tudo muito fácil. Come uma aqui, se apaixona ali, tem filho com uma, casa com outra. Pode-se montar a vida do jeito que bem entender. Não é preciso articular amor e sexo. Amar uma e transar com a outra é facinho.
Uma foda pode durar desde 5 min até umas 3h, para um homem. Já para a mulher, uma foda pode durar desde 5 min até uns 10 meses. Sim, porque a foda do homem acaba quando o espermatozóide sai do corpo dele. Já a foda da mulher, pode acabar só quando o bebê sai de dentro dela. E muitas vezes, é aí que a coisa piora. Há zilhões de mães solteiras pelo mundo afora que podem dizer disso.
É claro que não é a minha intenção vitimizar mulher nenhuma. Aliás, vitimizar nunca é bom pra ninguém. As Unidades de Saúde estão espalhadas pelo Brasil. Há camisinhas e anticoncepcionais gratuitos. Há informações por tudo o que é canto. Assim, se alguém engravida, há que se responzabilizar por isso, independente das contingências às quais esteja submetida. Isso é fato.
Mas acho que tem gente que tem a tendência de se dizer ser contra o aborto com a justificativa de “fez, cuida”. E muitas vezes o que está dito nas entrelinhas, é “Mocinha, você foi lá e deu, né. Agora te vira e cuida dessa criança!”.
Só que aí a sociedade coloca pra essa mãe, ter essa criança, como uma punição por ela ter engravidado. Ok, acho que talvez seja mesmo o caso de punir pessoas irresponsáveis de algum modo. Mas, gente, não assim. É extremamente assustador, desastroso, enlouquecedor pra uma criança, viver num ambiente em que ela não é desejada. Bem, o que tô dizendo aqui é, que a gente não puna uma pessoa com outra. A mesma lógica que funciona pra defender a proibição do aborto, funciona pra defender a legalização do aborto. Não é justo matar um ser vivo pela irresponsabilidade de outro. E nem é justo forçar a viver em péssimas condições um ser vivo, pela irresponsabilidade de outro.
Não costumo escrever sobre essas questões polêmicas, mas essa do aborto me beliscou. Talvez porque para mim isso seja, sim, uma questão de gênero. Muito me irrita homens julgando mulheres acerca disso. Podem me chamar de feminista, de ignorante, de seja lá o que for. Mas as mulheres sabem, que no fundo, há que ter um “plano b”, um modo de se virar sozinha. Homens podem ser maravilhosos, companheiros geniais, mas eles são assustadores: dissociam amor de sexo facilmente. Ou seja...em se tratando de fazer filhos, a responsabilidade cairá sempre à mulher de uma forma muito mais pesada do que cairá ao homem. E é óbvio que aqui eu estou generalizando pra poder falar do meu ponto de vista. Sei que há homens que são muito diferentes disso, mas não é disso que estou falando. (Não vistam carapuças à toa).
Enfim, acho que a questão do aborto é decisão de mulher tomar. Não digo no sentido político ou social, mas no um a um, no caso a caso. Sou mulher, o corpo é meu e tenho o direito de decidir o que entra e o que sai do meu corpo. A proibição do aborto é um estupro ao contrário.
Assim, não estou defendendo o aborto, nem a legalização do mesmo. Apenas digo que proibi-lo é uma violência. E acho que é justamente isso que falta na nossa sociedade. Discutirmos os temas, antes de tomarmos decisões.
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